Por que o Tech Lead descarta você sem explicação?
Gustavo Moreno, ex-CTO, falou sem filtros sobre o que acontece de verdade quando um perfil técnico é descartado sem feedback. As razões que ninguém conta para você.
13 min de leituraHá uma estatística que deveria preocupar você: o desenvolvedor médio recebe rejeição entre 32 e 200 vezes antes de conseguir uma oferta formal. Não porque não sabe programar. Mas porque o mercado tech já não premia só quem escreve código, premia quem sabe mostrá-lo, contextualizá-lo e amplificá-lo.
Gustavo Moreno sabe disso em primeira mão. Fundou a Comerzzia em 2018, uma plataforma parecida com a Shopify que escalou de duas pessoas para mais de 10.000 empresas clientes, e nesse papel contratou dezenas de perfis técnicos: frontend, backend, DevOps, UX, produto. Também esteve do outro lado: passou por processos seletivos em empresas dos Estados Unidos e da Austrália, trabalhando remoto antes mesmo de a COVID normalizar isso.
Alguém que viveu os dois lados da mesa tem algo valioso a dizer sobre por que tantos bons perfis não conseguem oportunidades. Isto é o que ele aprendeu.
O código já não é o gargalo
Durante anos, o principal problema dos times de tecnologia foi simples: era preciso mais código do que se conseguia produzir. Os desenvolvedores eram o recurso escasso. O tempo de engenharia era o limitante real.
Isso mudou.
Hoje, com ferramentas como Claude, Cursor e os novos modelos de código, uma única pessoa consegue fazer em dois dias o que antes exigia um sprint completo com um time. O trabalho que antes demandava semanas de iteração, meses de planejamento e vários perfis coordenados agora pode ser comprimido radicalmente. Gustavo viveu isso na pele: desenvolveu o MCP da Comerzzia em aproximadamente dois dias usando o Claude. Quatro anos atrás, isso teria exigido um time completo e vários sprints.
Isso tem uma consequência direta para a sua carreira: o código, em si, já não diferencia você.
Não porque programar não importe, mas porque a capacidade de produzir código já não é o gargalo. O que as empresas precisam agora são pessoas que saibam o que construir, por que construir, e que usem a IA para multiplicar o seu impacto em vez de simplesmente automatizar tarefas.
A diferença entre um desenvolvedor que usa IA superficialmente e um que a usa bem não é pequena. Segundo Guillermo Rauch, fundador da Vercel, eles não são "um pouco melhores": são cem vezes mais eficazes. Essa distância já está aparecendo entre perfis que, no papel, parecem equivalentes.
A IA não substitui o developer que pensa, que entende o negócio, que toma decisões. Ela o amplifica. Se você ainda não é esse developer, esse é o único problema que vale a pena resolver hoje. Aprender a usar essas ferramentas de forma profunda já faz parte do perfil mínimo esperado, e em muitos processos seletivos isso é perguntado diretamente.
Como o recrutamento tech funciona de verdade
A maioria dos candidatos imagina que existe alguém do outro lado lendo o seu currículo com atenção, avaliando cada projeto, pensando na sua trajetória. Essa pessoa quase nunca existe.
A realidade é outra: quando uma empresa recebe centenas de candidaturas para um cargo, o primeiro filtro não é análise profunda. É uma olhada. Cinco segundos. Dez segundos. O suficiente para responder a uma única pergunta: tem algo aqui que mereça mais atenção?
Gustavo viveu isso do lado do CTO. Quando a Comerzzia levantou investimento e começou a contratar, ele revisou centenas de perfis. Não porque quisesse ser superficial, mas porque não havia outro jeito. Fazer uma análise profunda de cada candidato não é viável quando você tem um negócio operando, um time para gerenciar e decisões urgentes para tomar.
Por isso o currículo importa mais do que você pensa, e por razões diferentes das que você imagina.
Não se trata de incluir mais informação, mas de fazer com que a informação certa seja impossível de ignorar.
O padrão que funciona hoje, especialmente para empresas dos EUA e startups internacionais, é o currículo de uma página. Não por limitação, mas por sinal. Um currículo de uma página bem construído diz algo sobre você: você sabe priorizar. Sabe o que importa. Não precisa de dez páginas para demonstrar o seu valor.
O que um CTO ou recruiter procura na primeira olhada: - O que você está fazendo agora e em que empresa - Quanto tempo você está em cada cargo (o histórico de mudanças frequentes é um sinal de risco) - Que projetos você construiu ou de quais participou de forma relevante - Se o perfil faz sentido para o cargo ao qual você está se candidatando
Esse último ponto é crítico. Se alguém se candidata a uma vaga de frontend e o currículo está cheio de experiência de backend sem nenhum contexto, não é que a pessoa seja ruim: é que não fez o trabalho de adaptar a sua história para essa oportunidade. E isso custa caro no primeiro filtro.
Adapte o seu currículo ao cargo. Relevância, não quantidade. Inclua as três ou quatro experiências e certificações mais pertinentes para esse cargo específico, não uma lista exaustiva de tudo o que você já fez.
E sobre as trocas de emprego frequentes: se o seu histórico mostra quatro empresas em um ano, isso não é um dado neutro. Para quem contrata, é um sinal de risco. A curva de aprendizado de alguém novo em uma empresa leva aproximadamente três meses. Se a pessoa vai embora aos três meses, a empresa perdeu o investimento desse onboarding sem recuperar o valor. Esse cálculo qualquer CTO faz intuitivamente quando vê datas curtas em um currículo.
GitHub, portfólio e evidência pública
Há uma frase que resume boa parte do que diferencia os perfis que conseguem oportunidades dos que não conseguem: falar é fácil, me mostre o código.
Mas a versão mais precisa que se aplica hoje é: me mostre o que você construiu.
O GitHub é um dos primeiros lugares que alguém técnico revisa ao avaliar um perfil. E o que essa pessoa procura não é quantidade de commits. Procura evidência de que aquela pessoa constrói coisas reais, com critério, com continuidade.
O problema é que muitos perfis do GitHub não contam essa história. O que eles mostram é outro tipo de sinal, um que gera desconfiança:
- Forks de outros repositórios com modificações menores. Isso não é construir, é copiar.
- Commits insignificantes: mudanças de documentação, ajustes de cor, correções triviais. O padrão é visível e fácil de detectar.
- Repositórios vazios ou sem atividade real. Projetos que nunca chegaram a lugar nenhum.
Ter muito disso não ajuda. Em alguns casos, prejudica.
O que gera confiança é diferente: projetos próprios, com README claro, com tecnologias reais, com um problema concreto que resolvem. Projetos que pareçam construídos como se fossem para uma empresa. Projetos que tenham contexto, propósito e execução visível.
A quantidade não é o objetivo. Um único projeto bem feito diz mais do que vinte repositórios abandonados.
Gustavo chegou a conseguir posições em empresas com fundadores brilhantes sem sequer passar por um processo seletivo formal. Por quê? Porque tinha projetos para mostrar. Porque o que ele tinha construído falava antes de ele abrir a boca. Alguém via o trabalho dele, se interessava, pedia uma reunião, e daí saía uma oferta. Sem filtros, sem entrevistas técnicas extensas, sem processos de várias semanas.
Essa é a diferença entre esperar que encontrem você e construir algo que vale a pena encontrar.
A evidência pública não se limita ao GitHub. Artigos técnicos, blogs, demos, vídeos mostrando o que você construiu, posts documentando o que você aprende: tudo isso acumula. Tudo isso é tração de carreira que não depende de alguém decidir dar uma oportunidade a você. Você mesmo constrói, em paralelo a qualquer busca ativa de trabalho.
As empresas lembram de quem constrói. E as oportunidades chegam antes de você procurá-las.
O que realmente torna um developer valioso hoje
Em algum ponto do caminho, a indústria construiu um mito: se você sabe tecnologia o suficiente, se domina a stack certa, se tem as certificações adequadas, o trabalho vai chegar sozinho.
Esse mito já não funciona.
As startups e empresas internacionais procuram algo mais específico e mais difícil de adquirir do que conhecimento técnico: procuram pessoas que resolvam problemas de negócio, não só pessoas que escrevam código.
A diferença é enorme. Um developer que espera tickets para trabalhar, que não entende por que existe o produto que constrói, que não consegue falar com um cliente sobre o impacto do que faz, é útil mas limitado. O teto dele na empresa é baixo porque o seu impacto é previsível e restrito.
O perfil que as empresas valorizam hoje tem outra textura:
Entende o negócio. Sabe o que é MRR, CAC, churn. Sabe por que essas métricas importam e como o seu trabalho as afeta. Não porque tenha que fazer o trabalho do CFO, mas porque essa compreensão o torna melhor no seu próprio trabalho. Na Comerzzia, até os perfis técnicos precisavam entender como a empresa ganhava dinheiro, o que os clientes valorizavam e como as suas decisões de código afetavam essas variáveis.
Entende o produto. Consegue falar com usuários. Consegue propor soluções com base no que observa, não só executar o que pedem. Quando encontra um blocker, não espera: busca alternativas, escala cedo, propõe opções.
Aprende rápido. Em um ambiente que muda constantemente, a velocidade de aprendizado é uma vantagem competitiva direta. A pessoa que consegue absorver uma nova stack, uma nova ferramenta ou um novo contexto de negócio em semanas vale muito mais do que alguém que leva meses. Para Gustavo, quando contratava, a capacidade de aprender era mais determinante do que o nível técnico atual do candidato.
Tem autonomia real. Não precisa que expliquem o que fazer a cada passo. Consegue pegar um problema, entendê-lo, desenhar uma solução e executá-la. Isso reduz o custo de supervisão e aumenta o impacto, especialmente nas etapas iniciais de uma startup, em que não há tempo para microgestão.
Comunica com clareza e com números. Em uma entrevista técnica, a capacidade de explicar o raciocínio por trás de uma solução importa tanto quanto a solução em si. E quando você fala do seu trabalho, os números mandam: "reduzi o tempo de resposta da API em 120 milissegundos" diz algo completamente diferente de "otimizei a API". Os números não são detalhe. São sinal de que você entende o que faz e por que isso importa.
A LATAM tem uma oportunidade enorme
A demanda por talento tech latino-americano vinda de empresas dos Estados Unidos cresceu 250% nos últimos anos. Esse número não é decorativo. É o mapa de uma oportunidade real e concreta.
Por que contratam na LATAM? A resposta honesta tem duas partes.
A primeira: o talento latino-americano tem uma reputação conquistada. Aprende rápido, trabalha com compromisso e entende contextos de negócio complexos. Não é talento barato. É talento eficiente para empresas que não são Google nem Facebook, que são startups em crescimento com orçamentos reais, mas não infinitos.
A segunda: o diferencial de custo existe, e não é algo de que se envergonhar. Para uma startup dos EUA em estágio inicial, contratar talento LATAM de alto nível com salários competitivos para a região, mas acessíveis para ela, é uma decisão de negócio racional. Para o desenvolvedor latino-americano, isso se traduz em salários muito acima dos locais e em exposição a projetos de escala global.
76% das empresas dos EUA querem contratar mais talento internacional nos próximos anos. O mercado não está fechado. Está aberto e procurando ativamente.
O inglês continua sendo um diferencial enorme. Nem todas as posições exigem, sobretudo nos níveis júnior ou pleno, em que a comunicação passa por um CTO ou tech lead que serve de intermediário. Mas se você quer crescer, se quer acessar cargos de maior impacto, se quer falar diretamente com founders e C-levels, o inglês não é opcional. É o multiplicador de todas as outras habilidades que você tiver.
O trabalho remoto já não é novidade nem um benefício extraordinário. É a norma no ecossistema tech global. E isso elimina a barreira geográfica que historicamente limitava as oportunidades do talento LATAM. Hoje, a única fronteira real é a do perfil.
Como se destacar hoje no mercado tech
Esta não é uma lista de conselhos genéricos, é o que funciona de verdade.
Construa projetos constantemente. Não quando tiver tempo livre. Como prática regular. Projetos reais, que resolvam problemas reais, que você possa mostrar com orgulho. Um bem feito supera vinte medíocres. Se você tem trabalho, construa em paralelo. Se não tem trabalho, isso é o mais valioso que você pode fazer com o seu tempo.
Publique o que você aprende. Um artigo técnico, uma thread explicando como resolveu um problema, uma demo de algo que construiu, um post no Medium ou no Substack. Você não precisa ser especialista para publicar. Precisa ser honesto sobre o processo. A evidência pública acumula e trabalha por você mesmo quando você não está procurando ativamente.
Aprenda IA e use bem. Não para automatizar o que você já fazia, mas para amplificar o que você é capaz de fazer. Aprenda a usar Claude, Cursor, as ferramentas de código que estão redefinindo a produtividade. Consiga certificações da Anthropic e das plataformas líderes. Nas entrevistas de hoje, isso aparece. Quem usa bem não é um pouco melhor: é cem vezes mais eficaz.
Melhore o seu inglês sem desculpas. Não existe um nível mínimo recomendado. Existe um princípio simples: quanto melhor você falar, mais portas se abrem. Comece de onde estiver e melhore sem parar. Há formas gratuitas e pagas. O investimento tem retorno direto no tipo de oportunidades que você consegue acessar.
Candidate-se a muitas oportunidades. Entre 32 e 200 candidaturas antes de uma oferta formal. Essa é a faixa real. A rejeição não é pessoal: é volume. Há um único cargo e 200 candidatos. Eles precisam rejeitar 199. Não desanime com uma rejeição. Continue se candidatando com persistência e sem drama.
Escreva diretamente para founders. Se uma empresa interessa a você, não espere o processo formal. Identifique o CEO, o CTO, o CPO. Estude o que estão fazendo. Ofereça algo concreto que resolva um problema real deles. Gustavo conseguiu um dos seus melhores empregos assim: escreveu diretamente para o founder sobre um blocker que a empresa tinha, se ofereceu para resolver naquele fim de semana, resolveu, e a oferta chegou dias depois. Sem processo seletivo, sem entrevistas, sem espera.
Estude cada empresa antes de se candidatar. Não vá às cegas. Entenda a missão, o produto, quem fundou, que problema resolvem, que tipo de perfil estão contratando. Isso permite personalizar a sua apresentação, fazer perguntas inteligentes na entrevista e decidir se realmente vale o seu tempo. Uma entrevista bem preparada se nota desde os primeiros minutos.
Adapte o seu currículo ao cargo. Tenha vários. Um focado em frontend, outro em backend, outro em fullstack. A relevância importa mais do que a exaustividade. O que não agrega para aquele cargo específico, tire. Candidate-se com o perfil certo para cada oportunidade, não com um currículo genérico que serve para tudo e não convence ninguém.
Torne-se fundamental onde estiver. Se você está em um emprego, em um estágio, em um projeto freelance: não seja quem executa o que mandam. Seja quem entende o problema, propõe soluções, gera valor além da descrição do cargo. Esse é o perfil que consegue contratos renovados, referências que pesam e a próxima oportunidade sem procurá-la.
O mercado premia quem constrói
Há uma crença cômoda que convém abandonar logo: a de que o mercado tech em algum momento vai reconhecer o seu valor se você for bom o suficiente tecnicamente. Que as oportunidades chegam sozinhas se você dominar a stack certa.
Isso não é suficiente. Nunca foi de todo, mas hoje menos do que nunca.
O mercado tech continua cheio de oportunidades reais. As empresas dos EUA continuam contratando talento da LATAM. As startups continuam procurando perfis que resolvam problemas, não só que escrevam código. A demanda não desapareceu: ficou mais seletiva.
O que se premia hoje é diferente: evidência pública do que você constrói, capacidade de amplificar o seu trabalho com IA, compreensão do negócio além do código, comunicação clara, e a atitude de quem não espera permissão para gerar valor.
O developer que aprende rápido, constrói em público, usa a IA como alavanca e entende o produto que constrói não está competindo com centenas de candidatos, está em outra categoria.
Essa categoria não exige um currículo perfeito nem um GitHub impressionante desde o primeiro dia. Exige começar hoje e não parar.